Em meados de 1900, quando o jornalista Ivy Lee (pai das Relações Públicas modernas) começou a exercer sua profissão de Relações Públicas/Comunicador Institucional/Assessor de Imprensa nos Estados Unidos, o atual cenário político e econômico das Américas era bastante delicado: estavam surgindo os monopólios e, com eles, a concentração de riqueza na mão de poucos. A sociedade americana pressionava os atores sociais com relação a este problema e os jornais da época refletiam e reverberavam essa situação.

Ivy Lee

Ivy Lee

Foi neste contexto que o empresário David Rockefeller contratou Lee, que estava então começando a abrir os olhos dos donos do dinheiro norte-americanos sobre a importância da opinião pública, inclusive nos negócios. Isso em tempos em que William Henry Vanderbilt, presidente da maior ferrovia americana teria dito: “O público que se dane!”. Lee sugeriu a implementação de ações extremas para humanizar a corporação aos olhos do público, entre as quais a diminuição do número de horas trabalhadas. Também disseminou uma nova ótica de mudança de atitude para com a opinião pública e de divulgação de informações favoráveis às empresas em forma de notícias. Surgia aí a profissão de Public/Press Relations.

Por meio do cuidadoso, meticuloso, estratégico e estrutural trabalho de Ivy Lee, as coisas começaram a mudar entre os capitalistas selvagens.

Todo este preâmbulo nos traz à atual situação de crise econômica brasileira, junto a um momento de grande polarização política, na qual o trabalho do comunicador torna-se tão desafiador quanto foi o de Ivy Lee.

Hoje, principalmente hoje, não é possível pensar em Comunicação e/ou Relações Públicas sem pensar em articulações políticas, em cenário macroeconômico e consequências de negócios a curto, médio e longo prazo para o cliente. Na realidade, nunca foi. Mas atualmente a situação é bem mais melindrosa. Por quê? Vejamos um exemplo:

Você é responsável pela comunicação de uma instituição brasileira que recebeu aportes de um grande empresário ligado à operação Lava-Jato para a realização de um lindo projeto sem fins lucrativos no sertão nordestino que, por sua vez, teve o apoio do governo local, agora implicado em uma série de denúncias de corrupção que podem, inclusive, arrastar o nome do lindo projeto e da instituição para a lama, caso seja comprovado que o dinheiro que deveria ser transferido para o projeto nunca chegou ou chegou em parte.

Pode ser que você soubesse de tudo isso e não tivesse se importado (né?); pode ser que você não soubesse porque achou que não era relevante perguntar (vamos nos ater aos resultados!) ou ainda porque esconderam esses fatos de você; pode ser que você simplesmente não imaginou que isso pudesse acontecer. Mas pode. Muito facilmente. E para virar uma grande crise de imagem e reputação é “dois palitos”, como dizem os paulistanos. Principalmente hoje, quando temos uma polarização política cada vez mais carregada, em que as pessoas, principalmente nas redes sociais, utilizam qualquer deslize do oponente para realizar uma verdadeira fogueira de todos os envolvidos na situação. Tipo a sua instituição.

Por isso, em tempos de grande pressão social devido aos problemas econômicos conjunturais e grande crise de representatividade e polarização política no País, TODO o cuidado é muito POUCO em termos de Comunicação e/ou Relações Públicas.

A primeira coisa a se fazer é questionar a si mesmo: de que forma a instituição pode ser prejudicada pela opinião pública, seja ela de Direita ou Esquerda? Ela é absolutamente neutra e apartidária? Já fez negócios com alguma empresa que já prestou ou presta serviços para o Governo? Caso tenha relações com o Governo, são e/ou foram lícitas? Tem uma relação ética e transparente com seus stakeholders? Há algo que a instituição tenha feito que possa ser utilizado em um contexto político e relacioná-la a uma ideologia política, seja ela qual for? Isso seria positivo ou negativo para? Como poderíamos contornar a situação caso acontecesse A, B, C ou D alternativas? Que porta-vozes treinar? Etc.

Essas breves questões acima permeiam apenas a superfície do problema e da profundidade do trabalho que você deverá realizar de forma sistemática junto ao seu assessorado e/ou instituição para qual você trabalha à luz da atual crise econômica e política que vivemos. E lembre-se: a honestidade é sempre o melhor caminho. Então, se for necessário propor mudanças estruturais e ações extremas para a instituição – como Lee propôs – pensando não somente em ‘fabricar’ uma opinião pública favorável, mas realmente construí-la solidamente, encare estes desafios com honra e verdade! Prometo que irá valer a pena!