Para quem não assistiu ao filme Spotlight – Segredos Revelados (assista!), o enredo tem como base contar a história da investigação, por uma equipe do jornal The Boston Globe (Spotlight), dos casos de abuso sexual e pedofilia por membros da arquidiocese católica de Boston. Esta investigação recebeu o Prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003.

Muito se fala com relação ao papel dos jornalistas investigativos no filme que, com seu trabalho, tiveram a oportunidade de tornar público o tema, o que foi imprescindível para jogar luz à questão dos abusos. Fala-se bastante também sobre a omissão da Igreja Católica em relação aos padres acusados, exigindo-se do Vaticano uma explicação, um posicionamento, uma justificativa.

Porém, há um momento importante no filme sobre o qual pouco se falou até agora, pelo menos aqui no Brasil. {SPOILER ALERT} Nele, surge a figura de Jack Dunn (interpretado por Gary Galone), ex-aluno e o porta-voz (relações públicas/assessor de imprensa) do Boston College [local em que o editor do time Spotlight, Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton), também estudou]. A cena traz um embate entre a equipe Spotlight (Robinson e Sacha Pfeiffer – Rachel McAdams) e o colégio (Dunn e o presidente do colégio, Bill Kemeza – Tim Progosh), em que se põe em xeque o fato de terem surgido sete acusações de abusos ocorridos dentro da instituição, em um período de oito anos, e nada ter sido feito até então.

O personagem de Dunn diz à certa altura: “É uma grande escola, Robby, você sabe disso. E estamos falando de cerca de sete supostas vítimas durante, o que, oito anos?”

O verdadeiro Jack Dunn

Em uma carta para os produtores do filme datada de 18 de novembro de 2015, o advogado do verdadeiro Dunn disse que a cena mostra o porta-voz do BC como um colaborador no encobrimento e chamou o retrato de “difamatório” e de uma “fabricação devastadora.” Ele exigiu que a cena fosse removida e pressionou o caso em entrevistas para jornais e televisões locais. Em uma resposta datada de 24 de novembro, os produtores “respeitosamente, mas vigorosamente” discordaram e disseram ter como base os relatos de Robinson e Pfeiffer.

Foi um encontro típico entre um repórter com perguntas difíceis e um representante de relações públicas/assessor de imprensa que está fazendo o seu melhor para minimizar o dano que será feito para a sua instituição, no que é claro que será uma história/matéria infeliz” disse o verdadeiro Robinson, que falou em nome de si mesmo e Pfeiffer. “Isso é o que aconteceu em 2002, e é sobre isso que a cena é.”

Robinson disse que tinha uma lembrança vívida do que aconteceu, porque a reunião em si foi muito difícil para ele. “Esta foi a minha escola, que eu amo. E foi uma entrevista muito dolorosa para mim, pois trata-se de um lugar que me é muito caro. Então, eu me lembro muito bem “, disse ele.

Michael Keaton e o verdadeiro Walter ‘Robby’ Robinson

Ele reconheceu que não se lembrava das palavras textuais e exatas ditas por cada pessoa, mas disse que Dunn fez o que qualquer profissional de relações públicas faria: ele desafiou a noção de que os administradores do colégio sabiam sobre o abuso no momento em que ele aconteceu. Foi um momento ainda mais memorável, Robinson disse, por Kemeza ter interrompido Dunn ao dizer que, se ele tivesse sido presidente na época, ele teria sabido.

Todo esse problema nos leva a uma questão importante: como lidar com a verdade quando o seu assessorado está em terríveis apuros e prestes a sofrer uma tremenda crise de imagem? Deve-se revelá-la? Como? O que é ético neste caso? Tentar amenizar a culpa do assessorado, alegando que ele não poderia saber do que estava acontecendo, como fez – segundo o filme – Dunn? Tentar minimizar o problema, ao dizer que foram ‘somente sete abusos em um período de oito anos’? Dizer que vai apurar mais informações internamente antes de falar com a imprensa?

É uma situação difícil. No caso do filme, mais ainda.

O verdadeiro Robinson disse que Dunn agiu como o que se espera de um bom profissional de relações públicas/assessor de imprensa.

Será que agiu? É ainda mais delicado o caso deles, pois envolve fé, memória afetiva, nostalgia e um sentimento de pertencimento à instituição (tanto o jornalista quando o RP são ex-alunos). E quando as emoções sobrepõe a razão, podemos colocar tudo a perder.

Como profissional de relações com a mídia, devemos – obviamente – informar sempre a verdade. Porém, o cliente pode proibir que a verdade seja informada, por exemplo. Assim, infelizmente podemos ser responsabilizados, sim, por omitir e até colaborar com o (possível) erro/crime.

Exemplo pessoal

Eu tinha acabado de começar a trabalhar com um cliente, quando ele foi procurado pela equipe do Fantástico pelo fato de ter indicado, no passado, um profissional que lesou muitas pessoas. Essas pessoas, indignadas, tinham procurado o programa para jogar luz ao caso delas e tentar obter algum tipo de ‘justiça’ que até agora não tinha sido possível pela Justiça, visto que o profissional estava sumido. As pessoas tinham contado ao veículo que o meu mais recente cliente foi quem tinha indicado a elas o mau profissional.

A equipe queria marcar a entrevista ainda naquela semana e eu – como acredito que 100% de transparência e honestidade é sempre a melhor saída – aconselhei o cliente e agendei a entrevista. Então, junto com um consultor jurídico, fizemos um intenso trabalho junto ao cliente em cerca de dois dias. Reconstituição do caso detalhe a detalhe, reunião de provas, treinamento de speech, controle de emoções etc. A verdade é que à época que o cliente fez as indicações, o profissional procurado estava em um bom momento e ninguém esperava que ele fosse dar o calote em seus clientes. No dia da entrevista, com todo esse conteúdo reunido, organizado e nossa boa vontade em tratar com a imprensa com transparência, isso ficou claro. No fim das contas, a matéria acabou caindo porque o programa chegou à conclusão de que eles não poderiam crucificar o rapaz sumido por ter se enrolado na vida e falido por azar ou má administração.

Gestão de risco x crise

Por isso, é de suma importância que o RP/Assessor primeiramente tenha condições de saber sobre tudo que acontece no assessorado, prevenindo-o acerca de possíveis erros e equívocos (sabemos que ‘não errar’ nesta vida é bem difícil, ainda mais quando estamos falando de grandes corporações ou instituições; afinal, onde há muitos seres humanos, sempre há erros) e o convença e oriente a ser SEMPRE 100% transparente.

Uma gestão de risco eficaz previne as crises. Dependendo do setor do cliente (químico, energia, religioso etc), se for propenso a acidentes, problemas e polêmicas, deve fazer parte do trabalho de rotina do RP/Assessor a conscientização de que a omissão de hoje pode ser o processo judicial de amanhã.

Assim, a gestão de risco de eventuais problemas tem como objetivo, além de evitar a crise, pontuar TODA a estratégia de comunicação do assessorado específica para um possível problema, como: elaboração de key messages, do speech, preparação do porta-voz, construção de comunicados para todas as frentes de comunicação, interface com a área jurídica, treinamento da equipe de atendimento e comercial etc. É um trabalho extenso, intenso e necessário.

Pois quando o problema vier à tona (e, cedo ou tarde, ele virá), todos estarão no mesmo barco e nenhum gerenciamento de crise será capaz de reverter 100% a imagem gravemente arranhada de uma instituição. Ainda mais se o BO for transformado em um grande longa-metragem, indicado ao Oscar de Melhor Filme, como é o caso de Spotlight.

E você? O que faria em uma situação como a de Dunn?